20 de fev. de 2015

"O pacto em que todos ganham não é mais possível"




Da CartaCapital

Grupo que vem ganhando relevância nacional, desde 2013, por conta das manifestações em favor de moradia popular, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) ajudou a consolidar Guilherme Boulos como um dos principais nomes da esquerda brasileira. Como parte da matéria de capa da edição de CartaCapital desta semana, a reportagem entrevistou o líder sem teto para uma análise sobre o atual momento da política brasileira, em meio a rumores de impeachment contra o governo Dilma Rousseff.

Para Guilherme Boulos, a presidenta fez o mesmo caminho do ex-presidente Getúlio Vargas no início da década de 1950, ao tentar conquistar a direita depois de uma campanha eleitoral mobilizada pelos movimentos populares. Mas, ao contrário do que aconteceu durante boa parte da gestão Lula, não há mais condições econômicas para agradar tanto conservadores como progressistas. “A política do pacto de que todos ganham não era mais possível. E a escolha foi, lamentavelmente, cortar do lado dos trabalhadores”.


Carta Capital: Como o senhor avalia o início de governo Dilma?

Guilherme Boulos: No segundo turno houve um discurso forte da presidenta mais à esquerda. Esse discurso, diante do medo de um possível retrocesso com Aécio Neves, conseguiu mobilizar setores populares importantes. Quem foi para as ruas no segundo turno não foram militantes pagos, mas os movimentos sociais. Poucas horas após o resultado, é impressionante, os gestos da presidenta foram no sentido contrário. Tivemos aumento de juros e declarações desastrosas, como a da abertura de capital da Caixa Econômica Federal. A opção feita pela presidenta e pelo PT foi de responder à crise pela direita. Esse é o grande problema. Quando o crescimento econômico degringolou por conta da crise dos últimos quatro anos, o governo tinha de fazer opções. O orçamento diminuiu, de algum lado tinha de cortar. A política do pacto de que todos ganham não era mais possível. E a escolha foi, lamentavelmente, cortar do lado dos trabalhadores, em vez de fazer uma política de reformas populares, mais à esquerda.



CC: Há clima para um impeachment?

GB: A Dilma Roussef incorreu em um erro parecido com aquele de Getúlio Vargas em 1951. Vargas foi eleito em uma das campanhas de maior mobilização do País. Milhares de brasileiros foram às ruas em 1950. Mal assumiu e, como tinha o Congresso contrário e a UDN dominando a mídia, fez as concessões. Montou um ministério conservador e ficou refém desses setores. Acreditar que essas sinalizações à elite e à direita eram suficientes para domá-las foi o equívoco do Vargas. E quando tentou dar uma guinada mais à esquerda, já era tarde. A base popular que o elegeu não confiava mais nele. O caminho de contrariar, de frustrar as expectativas da base popular que a elegeu é o caminho da ruína. Evidentemente, o impeachment a essa altura, principalmente de onde parte a ideia, é golpismo. É inaceitável. Agora a presidenta tem de entender que o governo dela precisa ser mais defensável. Hoje é difícil sair na rua para defender a sua administração. Evidentemente, da nossa parte, vai haver um rechaço direto a qualquer alternativa golpista da direita e da elite, pois sabemos até onde isso vai. Na política não tem essa de “pior que está, não fica”. Fica. Sempre pode ficar pior e temos de analisar essas situações e impedir que a direita ganhe ainda mais com esse processo. Mas isso não significa da nossa parte defender o governo Dilma. Primeiro, o governo tem de se fazer defensável, depois pode pedir para ser defendido.



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Ariadne Morais

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